sábado, 4 de julho de 2009

A MISERICÓRDIA DE DEUS


"Louvai ao Senhor, porque ele é bom; porque a sua begnidade (ou misericórdia) dura para sempre" (Salmo 136-1) Deus deve ser grandemente louvado por esta perfeição do Seu caráter. Por três vezes, em três versículos, o salmista convida os santos a louvarem ao Senhor por este atributo adorável. E cer¬tamente é o mínimo que se pode pedir aos que tão copiosamente se beneficiaram dele. Quando ponderamos as características desta excelência divina, não podemos senão bendizer a Deus por ela A Sua misericórdia (ou benignidade), é "grande" (1 Reis 3-6- 1 Pedro 1:3), "abundante" (Salmo 86:5), "terna" (Lucas 1-78 'na versão utilizada pelo autor); "... de eternidade a eternidade so¬bre aqueles que o temem..." (Salmo 103:17). Bem podemos dizer com o salmista: "... louvarei com alegria a tua misericór¬dia ... (Salmo 59:16).
"... eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti e apregoarei o nome do Senhor diante de ti; e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem me compadecer" (Êxodo 33:19). Em que a misericórdia de Deus difere da Sua "graça"? A misericórdia de Deus tem sua origem na bon¬dade divina. O primeiro fruto da bondade de Deus é Sua benigni¬dade ou generosidade, pela qual Ele dá liberalmente a Suas criaturas como criaturas; assim deu Ele o ser e a vida a todas as coisas. O segundo fruto da bondade de Deus é Sua misericór¬dia, que denota a pronta inclinação de Deus para aliviar a miséria das criaturas caídas. Assim, "misericórdia" pressupõe pecado.
Embora não seja fácil, à primeira consideração, perceber uma real diferença entre a graça e a misericórdia de Deus, podemos compreendê-la se ponderarmos cuidadosamente os Seus procedi¬mentos para com os anjos que não caíram. Ele nunca exerceu misericórdia para com eles, pois jamais tiveram qualquer neces¬sidade dela, pois não pecaram, nem ficaram debaixo dos efeitos da maldição. Todavia, eles são objetos da livre e soberana graça de Deus. Primeiro, porque Deus os elegeu do seio de toda a raça angélica (1 Timóteo 5:21), Segundo, e em conseqüência da sua eleição, porque foram preservados da apostasia, quando Satanás se rebelou e arrastou consigo um terço das hostes celestiais (Apocalipse 12:4), Terceiro, tornando Cristo a Cabeça deles (Colossenses 2:10; 1 Pedro 3:22), meio pelo qual eles permanecem eter¬namente seguros na santa condição em que foram criados. Quarto, devido à exaltada posição que lhes foi atribuída: viver na pre¬sença imediata de Deus (Daniel 7:10), servi-1O constantemente em Seu templo celestial, receber dEle honrosas missões (Hebreus 1:14). Isso é graça abundante para com eles, mas "misericórdia" não é.
No empenho em estudar a misericórdia de Deus como ex¬posta nas Escrituras, é preciso fazer uma tríplice distinção, se é que a Palavra da Verdade há de ser "bem manejada" nesse ponto. Primeiro, há uma misericórdia geral de Deus, que se estende não somente a todos os homens, crentes e descrentes igualmente, mas também à criação inteira: "...as suas misericórdias são sobre todas as suas obras" (Salmo 145:9); "... de mesmo é quem dá a todos a vida, e a respiração, e todas as coisas" (Atos 17:25). Deus tem compaixão da criação animal em suas necessi¬dades, e a supre de provisão adequada. Segundo, há uma mise¬ricórdia especial de Deus, exercida para com os filhos dos homens, ajudando-os e socorrendo-os, apesar dos seus pecados. Também a estes Deus supre todas as necessidades da vida: "... porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos" (Mateus 5:45). Terceiro, há uma miseri¬córdia soberana, reservada para os herdeiros da salvação, comu¬nicada a estes por meio de uma aliança, através do Mediador.
Acompanhando um pouco mais a diferença entre o segundo e o terceiro pontos distintivos acima expostos, é importante notar que as misericórdias que Deus concede aos ímpios são exclusiva¬mente de natureza temporal; quer dizer, limitam-se estritamente a presente vida. Não haverá misericórdia que se estenda a eles além-tumulo: "... este povo não é povo de entendimento- por isso aquele que o fez não se compadecera dele, e aquele que o formou não lhe mostrará nenhum favor" (Isaías 27:11) Neste ponto, porém, pode oferecer-se uma dificuldade a algum dos nos¬sos leitores, a saber: não afirmam as Escrituras que a misericórdia de Deus, “...a sua benignidade dura para sempre"? (Salmo 13b: 1)7 E preciso assinalar duas coisas neste contexto. Deus nunca deixa de ser misericordioso, pois isto constitui uma qualidade da essência divina (Salmo 116:5); mas o exercício da Sua misericór¬dia e regulado por Sua vontade soberana. Tem que ser assim, pois não ha fora dEle coisa nenhuma que O obrigue a agir; se hou¬vesse, essa "coisa" seria suprema e Deus deixaria de ser Deus. É somente a pura graça soberana que determina o exercício da misericórdia divina. Deus afirma expressamente este fato em Romanos 9:15: "Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericór¬dia. Não e a desgraça da criatura que O leva a mostrar misericórdia, pois Deus não é influenciado por coisas alheias a Si mesmo, como nós somos. Se Deus fosse influenciado pela miséria abjeta dos pecadores leprosos, Ele os limparia e os salvaria a todos. Mas não o faz. Por quê? Simplesmente porque não é do Seu agrado e do Seu propósito agir assim. Menos ainda são os méritos da criatura que O levam a conceder-lhes misericórdias, pois é uma contradição de termos falar em merecer "miseri¬córdia”. "Não petas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou..." (Tito 3:5) — aquelas estando em direta antítese a esta. Tampouco são os méritos de Cristo que movem Deus a conceder misericórdias aos Seus elei¬tos; isto seria tomar o efeito pela causa. É "através" ou por causa da misericórdia de Deus que Cristo foi enviado ao mundo, ao Seu povo (Lucas 1:78). Os méritos de Cristo tornaram possí¬vel a Deus conceder justamente misericórdias espirituais aos Seus eleitos, tendo sido satisfeita plenamente a justiça pelo Fiador! Não, a misericórdia provém unicamente da vontade soberana de Deus.
Ademais, conquanto seja verdade, bendita e gloriosa verdade, que a misericórdia de Deus "dura para sempre", devemos obser¬var cuidadosamente os objetos a quem Deus mostra misericórdia. Até o lançamento dos reprovados no "lago de fogo" é um ato de misericórdia. O castigo dos ímpios deve ser considerado de um tríplice ponto de vista. Do lado de Deus, é um ato de justiça, vindicando a Sua honra, A misericórdia de Deus nunca se mostra cm detrimento da Sua santidade e justiça. Do lado dos ímpios, é um ato de eqüidade, dado que são postos a sofrer a merecida re¬compensa das suas iniqüidades. Mas do ponto de vista dos redi¬midos, o castigo dos ímpios é um ato de indescritível misericórdia. Quão terrível seria se a presente ordem de coisas continuasse para sempre, quando os filhos de Deus são forçados a viver no meio dos filhos do diabo! O céu logo deixaria de ser céu, se os ouvi¬dos dos santos ainda ouvissem a Linguagem blasfema e corrom¬pida dos reprovados. Que misericórdia, o fato de que na Nova Jerusalém não entrará “ ... coisa alguma que contamine, e cometa abominação... " (Apocalipse 21:27)!
Para que o leitor não pense que no último parágrafo acima estivemos laborando sobre a nossa imaginação, apelemos para as Escrituras Sagradas em apoio do que foi dito. No Salmo 143:12 vemos Davi orando: "E por tua misericórdia desarraiga os meus inimigos, e destrói a todos os que angustiam a minha alma: pois sou teu servo". Ainda, no Salmo 136:15 lemos que Deus "derribou a Faraó com o seu exército no Mar Vermelho; porque a sua benignidade (ou misericórdia) dura para sempre". Foi um ato de castigo a Faraó e aos seus exércitos, mas foi um ato de "mise¬ricórdia" para os israelitas. Mais ainda, em Apocalipse 19:1-3 lemos: "... ouvi no céu como que uma grande voz de uma gran¬de multidão, que dizia: Aleluia; Salvação, e glória, e honra, e poder pertencem ao Senhor nosso Deus; porque verdadeiros e jus¬tos são os seus juízos, pois julgou a grande prostituta, que havia corrompido a terra com a sua prostituição, e das mãos dela vingou o sangue dos seus servos. E outra vez disseram: Aleluia. E o fumo dela sobe para todo o sempre".
Do que se acaba de ver diante de nós, notemos como é vã a presunçosa esperança dos ímpios que, apesar do seu continuado desafio a Deus, mesmo assim contam com uma atitude misericor¬diosa de Deus em favor deles. Quantos há que dizem: não acre¬dito que Deus me lançará no inferno; Ele é muito misericordio¬so. Essa esperança é uma víbora que, se for acalentada no colo deles, irá feri-los com picada morta!. Deus é Deus de justiça, como de misericórdia, e Ele declarou expressamente que "... ao culpa¬do não tem por inocente..." (Êxodo 34:7). Sim, Ele disse: "Os ímpios serão lançados no inferno e todas as gentes que se esque¬cem de Deus" (Salmo 9:17). Também poderiam raciocinar os homens: se se deixasse acumular o lixo, e os esgotos ficassem estagnados, e as pessoas ficassem privadas de ar renovado, não acredito que um Deus misericordioso as deixaria cair presas de uma febre mortal. O fato é que aqueles que negligenciam as leis da saúde são tomados pela doença, apesar da misericórdia de Deus. Igualmente verdade é que os que negligenciam as leis da saúde espiritual sofrerão para sempre a ''segunda morte".
É indizivelmente grave ver tantos abusando desta perfeição divina. Continuam desprezando a autoridade de Deus, pisoteando Suas leis; continuam em pecado, e ainda se vangloriam apoiados na Sua misericórdia. Mas Deus não será injusto para Consigo mesmo. Deus mostra misericórdia para o penitente sincero, não porém para o impenitente (Lucas 13:3). É diabólico continuar em pecado e ainda contar com a misericórdia de Deus para a proscrição do castigo. Equivale a dizer: "Façamos males, para que venham bens". Dos que falam assim, está escrito: "... A con¬denação desses é justa' (Romanos 3:8). Com toda a certeza, essa presunção se verá frustrada; leia cuidadosamente Deuteronômio 29:18-20. Cristo é a propiciação espiritual, e todos quantos des¬prezarem e rejeitarem o Seu senhorio, perecerão "... no caminho, quando em breve se inflamar a sua ira" (Salmo 2:12).
O nosso pensamento final será sobre as misericórdias espiri¬tuais de Deus para com o Seu povo. "... a tua misericórdia é grande até aos céus..." (Salmo 57:10). As riquezas da miseri¬córdia transcendem os nossos mais elevados pensamentos. "Pois quanto o céu está elevado acima da terra, assim é grande a sua misericórdia para com os que o temem" (Salmo 103:11). Nin¬guém pode medi-la. Os eleitos são designados "... vasos de mi¬sericórdia..." (Romanos 9:23). Foi a misericórdia que os vivi-ficou quando estavam mortos em pecado (Efésios 2:4-5). A mi¬sericórdia os salvou (Tito 3:5). Sua abundante misericórdia os regenerou para uma herança eterna (1 Pedro 1:3). E nos faltaria tempo para falar da misericórdia de Deus que preserva, sustenta, perdoa e supre os Seus. Para eles Deus é "... Pai das misericór¬dias..." (2 Coríntios 1:3).

Quando em elevação minha alma sonda
as Tuas misericórdias, ó meu Deus,
a visão me arrebata, e então me absorvo em encanto,
em amor e em louvor.
A.W.PINK

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