sábado, 4 de julho de 2009

A PACIÊNCIA DE DEUS


Tem-se escrito muito menos sobre esta excelência do caráter divino do que sobre as demais. Não poucos dos que têm se es¬tendido largamente sobre os atributos divinos, deixaram de lado, sem nenhum comentário, a paciência de Deus. Não é fácil opinar sobre a razão disto, pois certamente a paciência de Deus é igual¬mente uma das perfeições divinas, como a Sua sabedoria, poder ou santidade, e igualmente digna de ser admirada e reverenciada por nós. É verdade que esse vocábulo não se acha numa concor¬dância tantas vezes como os outros, mas a glória desta graça refulge em quase todas as páginas das Escrituras. O certo é que perdemos muito, se não meditamos com freqüência na paciência de Deus e se não oramos fervorosamente, rogando que os nossos corações a ela se disponham mais completamente.
O mais provável é que a principal razão pela qual tantos escritores deixaram de dar-nos algo, separadamente, sobre a pa¬ciência de Deus, é a dificuldade em distinguir este atributo da bondade e da misericórdia divinas, particularmente desta última A longaminidade de Deus é mencionada repetidamente era con¬junto com a Sua graça e misericórdia, como se pode verificar consultando Êxodo 34:6; Números 14:18; Salmo 86:15 etc Não se pode negar que a paciência de Deus é realmente uma demons¬tração da Sua misericórdia, na verdade um modo pelo qual esta se manifesta freqüentemente; não se pode conceder, porém que ambas sejam urna só e a mesma excelência e que não se possa separar uma da outra. Embora não seja fácil distinguir entre elas as Escrituras nos autorizam plenamente a afirmar sobre uma delas algumas coisas que não podemos afirmar sobre a outra.
Stephen Charnock, o puritano, define em parte a paciência de Deus assim: "É uma parte da bondade e da misericórdia di¬vinas e, contudo, difere de ambas. Sendo Deus a maior bondade tem a maior brandura; a brandura é sempre companheira da bondade e, quanto maior a bondade, maior a brandura. Quem houve tão santo como Cristo, e tão gentil? A lentidão de Deus para a ira é um aspecto da Sua misericórdia: "... o Senhor (é) sofredor e de grande misericórdia" (Salmo 145:8; Atualizada, se¬melhante à versão da citação: "... o Senhor (é) tardio em irar-se e de grande clemência"). A paciência difere da misericórdia na consideração formal do objeto: a misericórdia considera a cria¬tura como infeliz, a paciência considera a criatura como crimi¬nosa; a misericórdia tem pena do ser humano em sua infelicidade a paciência tolera o pecado que gerou a infelicidade e deu nasci¬mento a mais infelicidade ainda".
Pessoalmente, definimos a paciência divina como aquele po¬der de controle que Deus exerce sobre Si mesmo, levando-0 a tolerar os maus e a demorar-Se a castigá-los. Em Naum 1:3 lemos: “O Senhor e tardio em irar-se, mas grande em força...", sobre o qual disse o senhor Charnock: "Os homens que são grandes no mundo sofrem rápido impulso da paixão, e não se dispõem a perdoar logo, ou a tolerar um ofensor, como alguém de nível inferior. É a falta de poder sobre o próprio ego que os leva a fazer coisas impróprias sob provocação. Um príncipe capaz de su¬jeitar as suas paixões é um rei sobre si mesmo, bem como sobre os seus súditos. Deus é tardio em irar-Se porque é grande em força, Ele não tem menos poder sobre Si mesmo do que sobre as Suas criaturas'.
É na questão acima, pensamos nós, que a paciência de Deus se distingue mais claramente da Sua misericórdia. Embora a cria¬tura seja beneficiada por ela, a paciência de Deus diz respeito principalmente a Si próprio, como uma restrição imposta por Sua vontade aos Seus atos, ao passo que a Sua misericórdia esgota-se totalmente na criatura. A paciência de Deus é aquela excelência que O leva a suportar grandes ofensas sem vingar-Se imediata¬mente. Ele tem um poder de paciência, como também um poder de justiça. Assim, a palavra hebraica para "longânimo" é tradu¬zida por '"tardio em irar-se" em Neemias 9:17, Joel 2:13, etc. Não que haja quaisquer paixões na natureza divina, mas que à sabedoria e à vontade de Deus apraz agir com aquela dignidade e sobriedade que vem a ser a Sua exaltada majestade.
Em apoio de nossa definição acima, permita-me assinalar que foi para esta excelência do caráter divino que Moisés apelou, quando Israel pecou tão afrontosamente era Cades-Barnéia, e ali provocou ao Senhor tão dolorosamente. Ao Seu servo disse o Se¬nhor: "Com pestilência o ferirei, e o rejeitarei..." (Números 14:12). Então foi que o mediador tipológico intercedeu: "Agora, pois, rogo-te que a força do meu Senhor se engrandeça; como tens falado, dizendo: O Senhor é Longânimo" (versículos 17 e 18). Portanto, a Sua "longanimidade"" ou paciência é a Sua "for¬ça" ou o Seu poder de auto-restrição.
Ainda em Romanos 9:22 lemos: "E que direis se Deus, que¬rendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para perdição". Se Deus imediatamente fizesse em pedaços estes vasos reprova¬dos, o Seu poder de auto-controle não apareceria tão eminentemente; tolerando a iniqüidade deles e lhes sobre-levando demoradamente o castigo, o poder da Sua paciência fica demonstrado gloriosamente. É verdade que os ímpios interpretam a paciência de Deus de maneira muito diferente -— "Visto como se não exe¬cuta logo o juízo sobre a má obra, por isso o coração dos filhos dos homens está inteiramente disposto para praticar o mal" (Eclesiastes 8:11) — mas o olhar ungido adora o que eles insultam.
"O Deus de paciência" (Romanos 15:5) é um dos títulos divinos. A Deidade é assim denominada, primeiro, porque Deus é tanto o Autor como o Objeto da graça da paciência na criatura. Segundo, porque é isto que Ele é em Si mesmo: a paciência é uma das Suas perfeições. Terceiro, como um padrão para nós: "Revesti-vos pois, como eleitos de Deus, santos, e amados, de en¬tranhas de misericórdia, de benignidade, mansidão, longanimida¬de" (Colossenses 3:12). E ainda: "Sede pois imitadores de Deus como filhos amados" (Efésios 5:1). Quando tentado a aborrecer-se com a lerdeza doutrem, ou a vingar-se de alguém que o ultra¬jou, lembre-se da infinita paciência e longanimidade de Deus para com você.
A paciência de Deus se manifesta em Sua maneira de tratar os pecadores. Quão surpreendentemente foi demonstrada para com os antediluvianos. Quando a humanidade estava universal¬mente degenerada, e toda a carne havia corrompido os seus ca¬minhos, Deus não a destruiu sem antes adverti-la. "... a longa¬nimidade de Deus esperava..." (1 Pedro 3:20), Deus esperou não menos de cento e vinte anos (Gênesis 6:3), tempo durante o qual Noé foi "... pregoeiro da justiça... " (2 Pedro 2:5). Assim, mais tarde, quando os gentios não só cultuavam e serviam mais a criatura do que ao Criador, mas também cometiam as mais vis abominações contrárias até mesmo aos .ditames da natureza (Ro¬manos 1:19-26), e com isso encheram a medida da sua iniqüida¬de; todavia, em vez de desembainhar a Sua espada para o exter¬mínio desses rebeldes, Deus "... deixou andar todas as gentes em seus próprios caminhos..." e lhes deu "... chuvas e tempos frutíferos..." (Atos 14:16-17).
A paciência de Deus foi maravilhosamente exercida e mani¬festada para com Israel. Primeiro, Ele "...suportou os seus costumes no deserto por espaço de quase quarenta anos (Atos 13.18) Posteriormente, quando os israelitas entraram em Canaã, mas seguiam os maus costumes das nações ao seu redor e pen¬diam para a idolatria, conquanto Deus os castigasse dolorosamen¬te não os destruiu por completo, mas sim em sua angustia, levantava libertadores para eles. Quando a sua iniqüidade subiu a tal ponto que ninguém, senão um Deus de infinita paciência, po¬deria suportá-los, Ele, não obstante, poupou-os durante muitos anos antes de deixar que fossem levados para a Babilônia. Final¬mente quando a sua rebelião contra Ele atingiu o clímax pela crucificação de Seu Filho, Deus esperou quarenta anos, antes de enviar os romanos contra eles, e isso, só depois deles Julgarem que não eram "...dignos da vida eterna... (Atos 13:46)
Quão maravilhosa é a paciência de Deus com o mundo hoje! Por toda parte as pessoas pecam a peito aberto. A lei divina e pisoteada e o próprio Deus é desprezado abertamente. É deveras espantoso que Ele não elimine de vez aqueles que tão descarada¬mente O desafiam. Por que Ele não corta da face da terra o infiel insolente e o escarnecedor verboso, como fez com Ananias e Safira? Por que não faz a terra abrir a boca e devorar os perseguidores do Seu povo para que, à semelhança de Data e Abirão fossem vivos para o Abismo? E que dizer da cristandade apóstata, em que todas as formas de pecado possíveis são agora toleradas e praticadas sob a capa do santo nome de_ Cristo? Por que a justa ira do Céu não põe fim a tais abominações? Somente uma resposta é possível: porque Deus tolera com muita pa¬ciência os vasos da ira, preparados para perdição (Romanos 9:22).
E que dizer do autor e do leitor? Façamos uma revisão em nossas vidas. Não transcorreu muito tempo desde quando nós seguíamos a multidão na prática do mal, não nos interessávamos nem um pouco pela glória de Deus e só vivíamos para gratificar o nosso ego. Quão pacientemente Ele tolerou a nossa conduta vil! E agora que a graça nos tirou como tições do fogo, dando-nos um lugar na família de Deus, e nos gerou para uma herança eterna na glória, quão miseravelmente Lhe retribuímos! Quão superficial a nossa gratidão, quão tardia a nossa obediência e quão freqüen¬tes as nossas apostasias! Uma razão pela qual Deus tolera que o crente permaneça carnal é que Ele possa demonstrar a Sua longanimidade para conosco (2 Pedro 3:9). Desde que este atributo divino só se manifesta neste mundo, Deus se empenha mais em mostrá-lo para com "os Seus".
Oxalá a nossa meditação nesta excelência divina abrande os nossos corações, enterneça as nossas consciências, e possamos aprender na escola da santa experiência a "paciência dos santos'1, a saber, a submissão à vontade divina e a perseverança na prática do bem. Busquemos fervorosamente a graça que nos capacite a imitar esta excelência divina. "Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus'" (Mateus 5:48); no con¬texto imediato Cristo nos exorta a amar os nossos inimigos, a bendizer os que nos maldizem, a fazer o bem aos que nos odeiam. Deus tolera bastante os ímpios, apesar da multidão dos seus pe¬cados; e nós, haveremos de querer vingar-nos por causa de uma única ofensa?
A.W.PINK

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