domingo, 12 de abril de 2009

Jan Hus


Jan Hus nasceu em cerca de 1372, de uma família camponesa pobre, que vivia na pequena aldeia de Husinek, no sul da Boêmia, e ingressou na Universidade de Praga quando tinha uns dezessete anos, em 1398, juntando-se ao corpo docente da Faculdade de Letras, como professor, fazendo os votos de sacerdote um pouco depois, em 1400. Durante estes anos, Hus experimentou uma conversão evangélica, embora não sejam claros seus detalhes. Sua escolha de uma vocação sacerdotal tinha sido motivada, em grande medida, pelo desejo de prestígio, segurança financeira e convivência na sociedade acadêmica. Como resultado de sua conversão, ele adotou um estilo mais simples de vida e manifestou mais interesse por seu crescimento espiritual.

Em 1402 Hus foi nomeado reitor e pregador da Capela de Belém, em Praga. Esta capela (que comportava três mil pessoas!) havia sido fundada em 1392 por um clérigo rico, Jan Milic, que havia renunciado ao luxo e ao prestígio, para se tornar um pregador pobre e “pai da reforma tcheca”. Com dedicação, Hus pregou ali a reforma eclesiástica e nacional que tantos outros tchecos queriam desde os tempos do imperador Carlos IV (falecido em 1378). Seus sermões atacavam os abusos dos clérigos, especialmente a imoralidade e a luxúria. A própria decoração da Capela de Belém era uma ilustração de seus ensinos. As paredes da capela não estavam decoradas com representações espetaculares de milagres, mas tinham pinturas contrastando o comportamento dos papas e de Cristo. Por exemplo, o papa andava a cavalo, enquanto Jesus andava a pé, e Jesus lavava os pés dos discípulos enquanto os pés dos papas eram beijados. Muitos clérigos entenderam corretamente que seu estilo de vida estava sendo questionado. Para ajudar seus ouvintes a ler as Escrituras, Hus também revisou uma tradução tcheca da Bíblia. Incentivou também o cântico de hinos congregacionais, sendo que ele mesmo escreveu muitos deles. Sua eloqüência e fervor eram tamanhos que aquela capela em pouco tempo se transformou no centro do movimento reformador.

O imperador Venceslau IV (1378-1419) e sua esposa Sofia escolheram Hus como seu confessor, e lhe deram apoio. Por outro lado, alguns membros mais destacados da hierarquia começaram a encará-lo com receio, mas boa parte do povo e da nobreza parecia segui-lo, e o apoio dos reis ainda era importante para que os clérigos não se atrevessem a tomar medidas contra ele. No mesmo ano que passou a ocupar o púlpito da Capela de Belém, Hus foi empossado como reitor da Universidade de Praga, de modo que se encontrava em ótima posição para impulsionar a reforma. Ao mesmo tempo em que pregava contra os abusos que havia na Igreja, ele continuava sustentando as doutrinas geralmente aceitas, e nem mesmo seus piores inimigos se atreviam a censurar sua vida ou sua ortodoxia. Diferente de Wycliffe, Hus era um homem extremamente gentil, e contava com grande apoio popular.

A influência das obras de Wycliffe

O conflito começou nos círculos universitários. Começaram a chegar a Praga as obras de John Wycliffe. Um discípulo de Hus, Jerônimo de Praga, passou algum tempo na Inglaterra, estudando na Universidade de Oxford, e trouxe consigo algumas das obras do reformador inglês. Hus parece ter lido estas obras com interesse e entusiasmo, tendo-as copiado à mão, pois nesta época a imprensa ainda não havia sido inventada. Mas Hus nunca se tornou um discípulo de Wycliffe – outros teólogos tchecos anteriores, como Mateus de Janov, também exerceram influência no desenvolvimento teológico de Hus. Os interesses do inglês não eram os mesmos de Hus, que não se preocupava tanto com as questões doutrinárias, mas sim com uma reforma nas práticas da igreja. Sua teologia era uma mistura de doutrinas evangélicas e católico-romanas tradicionais. Ele particularmente nunca esteve de acordo com o que Wycliffe tinha dito sobre a presença de Cristo na ceia, e continuou defendendo uma posição muito semelhante à transubstanciação, apesar de sustentar que tanto o vinho quanto o pão deviam ser oferecidos ao povo na Ceia do Senhor.

Na universidade, entretanto, as obras de Wycliffe eram discutidas. Os alemães se opunham a elas por uma longa série de razões técnicas e filosóficas, mas em seu intento de ganhar a batalha, tentaram dirigir o debate para as doutrinas mais controvertidas de Wycliffe, no propósito de provar que ele era herege, e que por isto suas obras deveriam ser proibidas. Hus e seus companheiros logo se viram na difícil situação de ter de defender as obras de um autor com cujas idéias eles não estavam completamente de acordo. Repetidamente, os tchecos declararam que não estavam defendendo as doutrinas de Wycliffe, mas sim o direito de ler suas obras. Diversos integrantes da hierarquia da Igreja, que eram alvo de ataques de Hus e de seus seguidores, e que viam nos ensinos do teólogo inglês uma ameaça à sua posição, se reuniram ao grupo dos alemães.

Esta era a época em que, em resultado do concílio de Pisa, chegaram a haver três papas. Venceslau IV apoiava o papa Alexandre V, enquanto o arcebispo de Praga, Zbyneck, e os alemães da universidade, apoiavam Gregório XII. Os alemães acabaram se retirando da Universidade de Praga, indo para a cidade de Leipzig, onde fundaram uma universidade rival, declarando que a de Praga se entregara à heresia.

Mais tarde, o arcebispo se submeteu à vontade do rei e reconheceu como papa Alexandre V. Mas se vingou de Hus e dos seus amigos, solicitando a este papa que fosse proibida a posse das obras de Wycliffe. O papa concordou e proibiu também as pregações fora das catedrais, dos mosteiros ou das igrejas paroquiais. Como o púlpito de Hus, na Capela de Belém, não se enquadrava nestas determinações, o golpe era claramente dirigido contra ele. A Universidade de Praga protestou. Mas Hus tinha agora de fazer a difícil escolha entre desobedecer ao papa ou deixar de pregar. Com o passar do tempo, sua consciência se impôs. Ele subiu ao púlpito e continuou pregando a tão ansiada reforma da Igreja. Este foi seu primeiro ato de desobediência, e a ele se seguiram muitos outros, pois quando em 1410 foi convocado para ir a Roma, para dar conta de suas pregações e ensino, ele se negou a ir, e em conseqüência, ele foi excomungado, em nome do papa, pelo cardeal Colonna, em 1411. Mas, apesar disto, Hus continuou pregando e ensinando, pois contava com o apoio dos reis e de boa parte do país.

Uma questão de autoridade

Assim Hus chegou a um dos pontos mais revolucionários da sua doutrina. Em seu entendimento, um papa indigno, que se opunha ao bem-estar da Igreja, não deveria ser obedecido. Hus não estava dizendo que o papa não era legítimo, pois continuava favorável a Alexandre V. Mas, mesmo assim, o papa não merecia ser obedecido. Em suas palavras, “por isto, nem o papa é a cabeça, nem são os cardeais o corpo da igreja santa, católica e universal. Porque somente Cristo é a cabeça e seus predestinados o corpo, e cada membro um membro deste corpo”. Até aqui, Hus não estava dizendo mais do que diziam os líderes do movimento conciliar, que buscavam também uma reforma, onde a autoridade do papa fosse transferida para um concílio. A diferença estava em que estes se ocupavam principalmente da questão jurídica de como decidir entre vários papas rivais e buscavam a solução deste problema nas leis e nas tradições da igreja, enquanto Hus declarava que a autoridade final é a Escritura, e que um papa que não se conformar a ela não deve ser obedecido. Em seu livro Sobre a Igreja ele disse que “uma coisa é ser da igreja, outra coisa é estar na igreja. Claramente não se segue que todas as pessoas vivas que estão na igreja são da igreja. Pelo contrário, nós sabemos que o joio cresce entre o trigo, o corvo come da mesma eira que o pombo, e a palha é colhida junto com os grãos. Alguns estão na igreja de nome e em realidade – tais como católicos predestinados obedientes a Cristo. Alguns não estão nem de nome nem em realidade na Igreja – tais como os pagãos depravados. Outros estão na igreja apenas em nome – tais como, por exemplo, os hipócritas depravados. Ainda outros estão na igreja em realidade e, embora eles pareçam estar em nome fora dela, são cristãos predestinados – tais como aqueles que são vistos ser condenados pelos sátrapas do anticristo antes da igreja”. Isto era, com poucas diferenças, o que o filósofo cristão William de Ockham (m. 1349) tinha dito, ao declarar que nem o papa nem o concílio, mas somente as Escrituras eram infalíveis.

Outro incidente complicou ainda mais a questão. João XXIII, que sucedeu Alexandre V como papa, estava em guerra com Ladislau de Nápoles. Nessa luta, sua única esperança de vitória estava em obter o apoio, tanto militar como econômico, do restante da cristandade latina. Então, ele declarou que a guerra com Ladislau era uma cruzada, e promulgou a venda de indulgências para sustentá-la. Os vendedores chegaram à Boêmia, usando todo tipo de métodos para vender sua mercadoria. Jan Hus, que vinte anos antes tinha comprado uma indulgência, mas que agora mudara de opinião, protestou contra este novo abuso por duas razões principais: em primeiro lugar, uma guerra entre cristãos dificilmente poderia receber o título de cruzada; e em segundo lugar, somente Deus pode perdoar pecados, por sua graça, e ninguém pode querer vender o que vem unicamente de Deus.

O rei Venceslau IV, entretanto, tinha interesse em manter boas relações com João XXIII. Ele tomou esta posição porque a questão de que se ele ou se o seu meio-irmão, Sigismundo, era o imperador legítimo ainda não fora decidida, e era possível que, se a autoridade de João XXIII viesse a se impor, seria ele quem teria de decidir a questão. Por isto, o rei proibiu que a venda de indulgências continuasse sendo criticada. Sua proibição, todavia, veio tarde demais. A opinião de Hus e de seus companheiros já era conhecida de todos, a ponto de terem surgido passeatas do povo em protesto contra esta nova maneira de explorar os tchecos.

Enquanto isto, João XXIII e Ladislau fizeram as pazes, e a pretensa cruzada foi revogada. Hus, no entanto, ficou sendo, para a cúria romana, o líder de uma grande heresia, e chegou-se a dizer que todos os moradores da Boêmia eram hereges. Em 1412, Hus foi excomungado de novo, por não ter comparecido diante da corte papal, e foi fixado um curto prazo para ele se apresentar. Se não o fizesse, Praga, ou qualquer outro lugar que lhe desse acolhida, estaria sob interdito. Desta forma, a suposta heresia de Hus traria prejuízo para a cidade.

Por esta razão, o reformador tcheco decidiu abandonar a cidade, onde tinha passado a maior parte da sua vida, indo se refugiar no sul da Boêmia. Ali, ele recebeu a notícia de que finalmente se reuniria um grande concílio em Constança, e que ele estava convidado para comparecer lá pessoalmente e se defender. Para isto, o novo imperador, Sigismundo, coroado em novembro de 1414, lhe ofereceu um salvo-conduto, que lhe garantia sua segurança pessoal. Este fato era um indício dos perigos que poderiam estar esperando por Hus. Ele sabia que os alemães, que tinham se transferido para Leipzig, tinham espalhado o rumor de que ele era herege. E sabia que não podia contar com nenhuma simpatia da parte de João XXIII. Os perigos que o esperavam em Constança eram grandes. Mas sua consciência o obrigava a ir. E assim partiu o reformador tcheco, confiando no salvo-conduto imperial e na justiça da sua causa. Só que ao ir para Constança, ele foi vítima de uma das mais sujas armadilhas feitas contra um cristão.

O concílio de Constança havia sido convocado para resolver a escandalosa situação de existirem dois papas, um na Itália, outro na França. Este “Grande Cisma” – que durou de 1378 a 1417 – tinha de ser tratado. Tinham comparecido a este concílio alguns dos mais distintos defensores da reforma através de um concílio, João Gerson e Pedro de Ailly. Em nome da unidade da igreja, o concílio afastou de seus cargos, por diversos meios, os três papas concorrentes, possibilitando aos cardeais eleger Martinho V. Naturalmente, um concílio que restaurou a autoridade do papado não estava pronto a permitir que um rebelde questionasse esta autoridade.

João XXIII o recebeu com cortesia, assegurando que “ainda que ele tenha matado o meu próprio irmão... ele deve ficar a salvo enquanto estiver em Constança”. Mas poucos dias depois, ele foi convocado a se apresentar diante do consistório papal. Hus insistiu em que tinha vindo expor sua fé diante do concílio, e não do consistório. Ali, ele foi formalmente acusado de herege, e ele respondeu que preferia morrer a ser herege, e que se o convencessem de que o era, ele se retrataria. A questão ficou suspensa, mas a partir de então, Hus foi tratado como um prisioneiro, primeiro em sua casa, depois no palácio do bispo, e por último em um convento dominicano que lhe serviu de prisão. Sua cela ficava bem perto de um sistema de escoação de esgotos.

Quando o imperador, que ainda não tinha chegado a Constança, soube o que tinha acontecido, ficou extremamente irado, e prometeu fazer respeitar seu salvo-conduto. Mas depois começou a dar menos ênfase nisto, pois não lhe convinha aparecer como protetor de hereges. Em vão foram os protestos do próprio Hus, como também os que chegaram de muitos nobres da Boêmia. Só que para os italianos, alemães e franceses, que eram a imensa maioria no concílio, os boêmios não passavam de bárbaros que sabiam pouco de teologia, e cujos pronunciamentos não deveriam ser levados a sério.

No dia 5 de junho, Hus compareceu diante do concílio. Poucos dias antes, João XXIII tinha sido aprisionado e trazido de volta para Constança. Já que isto significava que este papa tinha perdido todo o poder, e já que Hus tivera seus piores conflitos com ele, era de se supor que a situação do reformador melhoraria. Mas o contrário aconteceu. Doente, fisicamente desgastado por um longo aprisionamento e falta de sono, Hus foi levado para a assembléia acorrentado, como se tivesse tentado fugir ou se já tivesse sido julgado. Foi acusado formalmente de ser um herege e de seguir as doutrinas de Wycliffe. Ele tentou expor suas opiniões, mas houve uma tamanha gritaria que ele não pode se fazer ouvir. Por fim, foi decidido adiar a questão para o dia 7 do mesmo mês.

O processo de Hus durou três dias. Repetidamente ele foi acusado de herege. Mas, quando foram relacionadas as doutrinas concretas de que supostamente consistia sua heresia, Hus demonstrou que era perfeitamente ortodoxo. Pedro de Ailly assumiu a liderança do julgamento, exigindo que Hus se retratasse das suas heresias. Ele insistia em que nunca tinha crido nas doutrinas de que exigiam que ele se retratasse, e que por isto não podia fazer o que de Ailly exigia dele. Hus disse ao concílio que “não poderia, por uma capela cheia de ouro, recuar da verdade”. Não havia maneira de resolver o conflito. Pedro de Ailly queria que Hus se submetesse ao concílio, cuja autoridade não podia ficar em dúvida. Hus lhe mostrava que o papa que o tinha acusado de desobediência era o mesmo que o concílio acabara de depor. Segundo o historiador metodista Justo Gonzáles, “mostrar suas contradições a um homem supostamente sábio, tido como o homem mais ilustre da época, e isto diante de uma grande assembléia, nem sempre é uma atitude sábia”. O rancor de de Ailly aumentou cada vez mais. Outros líderes do concílio, entre eles João Gerson, diziam que estava desperdiçando o tempo que deveriam dedicar a questões mais importantes, e que de qualquer forma os hereges não mereciam tanta atenção. O imperador se deixou convencer de que ele não precisaria guardar sua palavra para com os que não têm fé, e retirou seu salvo-conduto.

Quando Hus acabou dizendo que era verdade que ele tinha dito que se não quisesse ter vindo para Constança, nem o imperador nem o papa teriam podido obrigá-lo, seus acusadores viram nisto a prova de que ele era um herege obstinado e orgulhoso – apesar de o nobre boêmio João de Clum, que o defendeu até o final, ter declarado que o que Hus dissera era verdadeiro, e que tanto ele como muitos outros nobres mais poderosos do que ele teriam protegido Hus se este tivesse decidido não ir ao concílio.

Fiel até a morte

O concílio pedia unicamente que Hus se submetesse, retratando-se de seus ensinos. Mas não estava disposto a escutar o acusado, quanto a quais eram as doutrinas que tinha crido e ensinado. Uma simples retratação teria bastado. O cardeal Zabarella preparou um documento em que exigia que Hus que se retratasse de seus erros e aceitasse a autoridade do concílio. O documento estava cuidadosamente redigido, porque seus juízes queriam lhe dar todas as oportunidades para que se retratasse, e assim ganhar a disputa, mas Hus sabia que se retratasse, com isto estaria condenando todos os seus amigos, pois se declarasse que suas doutrinas eram aquelas que seus inimigos tinham apresentado, estaria nisto implícito que seus seguidores criam nas mesmas coisas e que, portanto, eram hereges.

Sua resposta foi firme: “Apelo a Jesus Cristo, o único juiz todo-poderoso e totalmente justo. Em suas mãos eu deponho a minha causa, pois Ele há de julgar cada um, não com base em testemunhos falsos e concílios errados, mas na verdade e na justiça”. Por vários dias, o deixaram encarcerado, na esperança de que fraquejasse e se retratasse. Muitos foram lhe pedir que o fizesse, talvez sabendo que sua condenação seria uma mancha para o concílio de Constança. Mas ele continuou firme. Em 1 de julho de 1415, Hus escreveu sua última declaração: “Eu, Jan Hus, em esperança, sacerdote de Jesus Cristo, temendo ofender a Deus, e temendo cometer perjúrio, professo, por este meio, minha repugnância, para renunciar todos ou quaisquer dos artigos produzidos contra mim por meio de falso testemunho. Porque Deus é minha testemunha que eu nem os preguei, ou os afirmei, nem os defendi, entretanto eles dizem que eu fiz isto. Além disso, relativo aos artigos que eles extraíram de meus livros, digo que desprezo qualquer falsa interpretação que eles usaram. Mas já que eu temo transgredir a verdade, ou contradizer a opinião dos doutores da Igreja, eu não posso renunciar a qualquer um deles. E se fosse possível que minha voz pudesse chegar ao mundo inteiro agora, como no dia do julgamento, em que toda mentira e todo pecado que eu cometi será manifesto, então eu alegremente renuncio diante de todo o mundo toda falsidade e erro que eu ou tenha pensado ou declarado ou de fato tenha dito! Eu digo que eu escrevi isto de minha própria livre vontade e escolha. Escrito com minha própria mão, no primeiro dia de julho”.

Por fim, no dia 6 de julho, ele foi levado para a catedral de Constança. Ali, depois de um sermão sobre a teimosia dos hereges, ele foi vestido de sacerdote e recebeu o cálice, somente para logo em seguida lhe arrebatarem ambos, em sinal de que estava perdendo suas ordens sacerdotais. Depois cortaram seu cabelo, para estragar a tonsura. Por último, lhe colocaram na cabeça uma coroa de papel decorada com diabinhos, e o enviaram para a fogueira. A caminho do suplício, ele teve de passar por uma pira onde ardiam seus livros. Ele riu e disse aos que assistiam para não crerem nas mentiras que circulavam a seu respeito. Pediram-lhe mais uma vez que se retratasse, e mais uma vez ele negou com firmeza: “Deus é minha testemunha que a evidência contra mim é falsa. Eu nunca pensei ou preguei exceto com a única intenção de ganhar os homens, se possível, dos seus pecados”. Por fim orou, dizendo: “Senhor Jesus, por Ti sofro com paciência esta morte cruel. Rogo-Te que tenhas misericórdia dos meus inimigos”. O fogo foi aceso. Enquanto as chamas o envolviam, Hus começou a cantar: “Cristo, Tu Filho do Deus vivo, tem misericórdia de mim”.

Os carrascos recolheram todas as cinzas e as lançaram no lago de Constança, para que não restasse nada dele. Mas seus discípulos recolheram a terra em que foi queimado e a levaram para a Boêmia. O local onde ele morreu está marcado hoje por uma pedra memorial, e Hus ainda hoje é homenageado com um feriado público anual na República Tcheca. Pouco depois, Jerônimo de Praga, que tinha decidido se unir a ele em Constança, também foi martirizado. As idéias de Hus sobreviveram através de um grupo evangélico conhecido como Unitas Fratrum (Irmãos Unidos), ou Irmãos Boêmios, que existe até hoje, e influenciaram indiretamente Martinho Lutero (1483-1546) e John Wesley (1703-1791).

História dos Valdenses


Nos vales alpinos da região de Piemont, na Itália, também houve igrejas que continuaram o seu testemunho desde a época dos apóstolos. Estas, como os Paulícios, nunca se associaram ao esquema oficial baseado em Roma. Elas foram deixadas em paz, comparativamente sem perseguição, principalmente devido ao isolamento causado pela inacessibilidade das montanhas onde habitavam, pois, como bem sabemos, naquela época não existiam as facilidades de transporte de que hoje dispomos.

No ano de 1689 um escritor declarou: “Os Valdenses são, de fato, descendentes daqueles que fugiram da Itália depois que São Paulo pregou o Evangelho entre eles. Eles abandonaram a seus pais e foram morar nas montanhas, onde, daquela época até hoje, têm pregado o Evangelho de pai para filho na mesma pureza e simplicidade como foi pregado por São Paulo”.

O nome “Valdense”, com que foram alcunhados por outros, vem de PEDRO VALDO, de Leão, na França, um professor eminente entre eles no século 12.

Pedro Valdo era um comerciante e banqueiro bem sucedido e nunca havia pensado em Deus até o dia quando um de seus convidados morreu repentinamente numa festa por ele promovida. Ele viu, então, a sua grande necessidade de salvação e converteu-se a Cristo. Tornou-se um estudioso das Escrituras até que, em 1173 vendeu quase todos os seus bens, apenas fazendo provisão para a sua esposa e saiu pregando o Evangelho. Logo outros juntaram-se a ele. De início tentaram acomodar-se ao sistema vigente na Igreja Católica, mas já em 1184 foram excomungados. O grupo passou a ser visto como uma “seita” que ficou conhecida como “Os pobres de Leão”. Como resultado do seu testemunho houve conversões até na Alemanha. Pedro Valdo foi um dos poucos pregadores que faleceu de morte natural, em 1217, na Boêmia (hoje República Checa).

A influência de Pedro Valdo sobre aquelas igrejas foi grande, especialmente com respeito à responsabilidade de evangelizar. Até então elas estavam contentes em ficar apenas na região deles, mas receberam grande impulso para a evangelização quando Pedro Valdo e seus companheiros compartilharam com elas uma nova visão de outros lugares necessitados da palavra da cruz.

Em termos de doutrina prática, seguiam a simplicidade que criam ser o padrão do Novo Testamento.

1. Cada igreja local era governada por anciãos.

2. O batismo de crianças de colo era rejeitado e somente os crentes verdadeiros podiam ser batizados.

3. Em questões de disciplina, reconhecimento de anciãos, etc., toda a igreja participava juntamente com os anciãos. É lógico que este ponto de vista seria certo somente se os assuntos de disciplina fossem tratados primeiramente pelos anciãos, para que fosse dada orientação bíblica e fosse eliminada a possibilidade de serem as decisões tomadas com base em falsas acusações.

4. Na celebração da Ceia do Senhor o pão era compartilhado por todos, tanto quanto o vinho, ao contrário da prática adotada pela Igreja Católica.

5. Além dos anciãos nas igrejas locais, existia um grupo de irmãos, que eles chamavam de “apóstolos” (equivalente a “obreiros” nos dias de hoje). Estes irmãos viajavam de igreja em igreja trabalhando no ensino da Palavra. Viviam uma vida de pobreza voluntária por causa do Evangelho.

6. Era dada ênfase à leitura diária da Bíblia e ao culto familiar. Conferências eram promovidas com freqüência para ensino da Palavra e estímulo da comunhão entre os irmãos.

Significativo é o depoimento de Raisero Sachoni. Ele foi por dezessete anos um dos mais ativos pregadores dos "Cátaros" ou "Valdenses". Mais tarde uniu-se à ordem dominicana apostatando da fé. Tornou-se um acérrimo inimigo dos Valdenses, e por isso o papa fe-lo inquisitor da Lombardia. Por muitos anos, até sua morte, acusou e mandou matar seus ex-irmãos anabatistas. Foi um Judas. Sua opinião sobre a origem dos valdenses é como se segue:

"Entre todas as seitas não há mais perniciosa à igreja (católica é claro) do que os valdenses. Por três razões: Primeira, porque é a mais antiga, pois alguns dizem que data do tempo de Silvestre, 325 A.D. (Silvestre foi o papa que junto com Constantino condenou os donatistas, montanistas e novacianos), outros ao tempo dos apóstolos. Segunda, é a mais largamente espalhada, porque dificilmente haverá um país onde não existam. Terceira, porque, se outras seitas horrorizam aos que a ouvem, os valdenses, pelo contrário, possuem uma grande aparência de piedade. Como matéria de fato, eles levam vidas irrepreensíveis perante os homens e no que respeita a sua fé, aos artigos do seu credo, são ortodoxos. Sua única falta é que blasfemam contra a igreja e o seu credo".

O testemunho desse apóstata é muito importante. Não é fácil para um legado católico dizer que "datam do tempo de Silvestre ou dos apóstolos". Outro escritor, dessa vez um francês, Michelet, diz na Historie de France, II, pg 402, Paris 1833: "Os valdenses criam numa continuidade secreta através da Idade Média, igual a da Igreja Católica". E Neander adiciona na History of the Christian, pg 605, Vol. IV, 1859: "Não é sem fundamento a afirmação dos valdenses deste período (1100 em diante), a respeito da antigüidade de sua seita, e que tinha havido, desde o tempo da secularização da igreja, a mesma oposição (a igreja Romana) que eles sustentavam".

Os historiadores que se tem especializado na história dos valdenses sustentam a idéia de que as doutrinas dos valdenses não se originaram com Pedro Valdo. Diz Faber, The Waldenses and Albigenses:

"A evidencia que acabo de produzir, prova, não somente que os valdenses e albigenses existiram antes de Pedro de Lião; mas também, que no tempo do aparecimento dele nos fins do século doze, havia duas comunhões de grande antigüidade (O autor refere-se aos albingenses e valdenses ao dizer que existias duas comunhões). Segue-se, portanto, que mesmo nos séculos doze e treze, as igrejas valdenses eram tão antigas, que a sua origem remota foi atribuída, mesmo pelos seus inimigos inquisitoriais, ao tempo além da memória do homem. Os romanistas mais bem informados do período, não ousaram fixar a data da sua origem. Eram incapazes de fixar a data exata dessas veneráveis igrejas. Tudo que se sabe é que eles tinham florescido ao longo do tempo, e que eram muito mais antigos do que qualquer seita moderna".

Portanto, a se alguém quer saber a origem dos valdenses saiba que, apesar de receberem esse apelido somente a partir de 1100, já eram conhecidos como albigenses, paulicianos, donatistas, novacianos e montanistas. Tinham de diferente apenas o apelido, mas eram todos de uma mesma comunhão. Também todos, sem exceção, foram chamados de "anabatistas". O fato de aparecer paralelamente no mesmo período albigenses e valdenses, não quer dizer que os valdenses não seja uma continuação dos albigenses. Quer dizer que durante um período de mais ou menos meia década, enquanto o apelido albigense caía em desuso, crescia o nome valdense. É o que chamo de período de transição. O estudante notará que a mesma coisa aconteceu no século XVI. Neste período, enquanto caía o apelido anabatista, surgia o apelido batista.

A doutrina dos valdenses

Suas doutrinas eram idênticas a dos primitivos anabatistas. Há dois documentos datados de cerca do ano 1260 A.D. escritos por católicos que descrevem os valdenses: Um deles diz: "os valdenses vestiam com relativa simplicidade, comiam e bebiam moderadamente, sempre laboriosos estudiosos, havendo entre eles muitos homens e mulheres que sabiam de cor todo o novo testamento".
O outro documento é o tratado de Davi de Augsburgo, escrito sobre os "pobres de Lião" ou valdenses, e impregnado de ódio e antipatia. Este documento diz que os valdenses proclamavam-se "discípulos de Cristo e sucessores dos apóstolos" e quando eram excomungados, regozijavam-se com o fato de terem de sofrer perseguição como outrora os apóstolos, "nas mãos dos escribas e fariseus". O documento informa que eles rejeitavam os milagres eclesiásticos e os festivais, ordens, bênçãos, etc., dizendo que essas coisas foram introduzidas pelo clero cobiçoso; batizavam os que abraçavam seus princípios, dizendo alguns deles que o batismo de crianças não vale nada, pois elas são incapazes de crer. Não criam que o sangue e o corpo de Cristo estão na eucaristia, limitando-se a abençoar o elemento como um símbolo. Celebravam a ceia, recitando palavras do evangelho; negavam o purgatório, o concubinato, o sacerdotalismo, o legalismo, etc.

A Perseguição dos Valdenses

Porém, a paz no vale dos Valdenses foi interrompida em 1380 pelo Papa Clemente VII. Este enviou um monge inquisidor para tratar com os “hereges”. Nos treze anos seguintes mais de 230 pessoas morreram queimadas vivas. De 1400 em diante a perseguição aumentou, obrigando muitos a fugir para as montanhas onde morreram de frio e fome, especialmente mulheres e crianças. Esta perseguição estendeu-se por mais de cem anos.

Assim como os albigenses os valdenses foram tenazmente perseguidos pela Igreja Católica. A Inquisição matou, queimou, afogou, esfolou, torturou e fez muito mais para destruir os valdenses. Só para o estudante ter uma idéia, o Papa João XXII (1316-1334), tendo um rendimento farto e regular dos impostos criados por ele mesmo, gastava 63% do tesouro papal para financiar a guerra contra os anabatistas e os muçulmanos. (O Papado na Idade Média, pg 140 e 143). O papado obrigou o povo a pagar impostos com o intuito de financiar guerras visando o extermínio dos anabatistas. Em todos os países era passada a chamada "rota romana" com os ad doc - que significa "a isto" - pressionando e atormentando o povo a pagar o tributo para o papa.

No final do século XV os valdenses ainda estavam de pé. Suas forças estavam nos vales dos Alpes. Tinham uma escola prática em Milão e de ramificações em zonas distantes como a Calária e a Apúlia. Possuidores de um noviciado e de seminários independentes, os valdenses punham em campo uma grande quantidade de missionários itinerantes, os quais, conheciam de cor longas passagens dos evangelhos e das epístolas.
Infelizmente muitos se ligaram com os hussitas na Boêmia e com os Lolardos na Inglaterra. Isso degradou em muito a pureza de muitas igrejas valdenses, pois estas igrejas, assim como as protestantes, pregavam uma fé que podia-se pegar em armas para defender direitos. No século XVI a euforia da reforma também varreu uma grande parte dos valdenses. Acredito que isso destruiu o grupo como denominação. Alguns se aliaram com os luteranos na Alemanha, outros a Zuinglio na Suiça, e uma grande parcela com Calvino. Os fiéis, que não se misturaram, continuaram anabatistas puros. Até hoje existe algumas igrejas com o nome denominacional "valdense".

General William Booth


O Exército de Salvação

William Booth nasceu na cidade de Nottingham, na Inglaterra, no dia 10 de abril de 1827. Seu pai era um construtor que acabou perdendo tudo, e com treze anos de idade William começou a trabalhar na loja de um penhorista. Seu pai morreu logo depois, e William precisava ajudar a sustentar a sua mãe e irmãs com o pouco que ganhava.

Aos quinze anos de idade, William, que não tinha sido criado em lar cristão, começou a frequentar a Capela da Igreja Metodista de Nottingham, onde ele teve uma forte experiência de conversão:

Imediatamente depois da sua conversão, Booth começou a pregar nas áreas pobres da sua cidade, junto com outros adolescentes. Mas quando ele levou um grupo de jovens pobres para a igreja, a congregação de classe média-alta ficou escandalizada.

Depois de mudar-se para a grande cidade de Londres em busca de emprego, William continuou sua associação com a Igreja Metodista e teve oportunidades de pregar. Em 1850 ele foi aceito como pregador leigo num grupo de Metodistas dissidentes, e assim começou seu ministério de evangelista e avivalista.

Booth foi usado poderosamente nas igrejas Metodistas, e em 1852 foi ordenado como pregador. Ele se casou com Catherine Mumford em 16 de Junho de 1855. Inicialmente ligado a uma igreja em Londres, nesse mesmo ano de 1855 Booth foi liberado para exercer o ministério de evangelista itinerante.

Em 1858 Booth foi consagrado como Ministro mas também obrigado a assumir o pastoreado de uma igreja local. Ele sentiu que seu chamado era mais evangelístico que pastoral e em 1861 saiu da Igreja Metodista para seguir o ministério evangelístico.

Com filhos pequenos e sem sustento financeiro, os anos que se seguiram foram difíceis para a família Booth. Mas William foi usado poderosamente em avivamento, como Harold Begbie relata no livro "Life of William Booth":
Os aldeãos andaram pelos morros, e os pescadores remaram oito ou dez milhas de mar escuro, para as cidades onde William Booth estava pregando. Jornais locais registraram que, em alguns lugares, o comércio foi paralisado. Ao longo daquele canto do ducado, de Camborne para Penzance, a chama se queimou com força crescente. Centenas de conversões foram feitas.

Em 1865 a família Booth mudou-se para a cidade de Londres. Andando um dia pelo lado oeste da cidade, William foi chocado em ver a pobreza e miséria dos seus moradores.
Booth fundou um ministério, a Missão Cristã, para ministrar a essas pessoas. Desde o início, seus métodos – e os resultados – foram nada convencionais. Sedeada inicialmente em uma tenda, que foi destruida por uma gangue de baderneiros, mais tarde a missão se mudou para um salão de dança. Reuniões ao ar livre também sempre foi uma estratégia importante para a missão. Mais tarde, bandas marchando nas ruas foram utilizadas para atrair as multidões para ouvir a pregação do Evangelho.

Um forte mover do Espírito Santo impulsionou o crescimento do avivamento.
As descrições a seguir das Reuniões de Santidade, tiradas da Revista da Missão Cristã, não conseguiam mostrar realmente as cenas extraordinárias que foram testemunhadas, nem contam adequadamente os efeitos produzidos nas almas daqueles que participaram destes cultos.
Bramwell Booth conta que, depois de muitos anos de reflexão, e agora disposto a pensar que, em certa medida, a atmosfera dessas reuniões foi calculada para afetar histericamente certos temperamentos desequilibrados ou excitáveis, mesmo assim ele está convencido, completamente convencido,de que algo da mesma força que se manifestou no dia de Pentecostes se manifestou naquelas reuniões em Londres.
Ele descreve como homens e mulheres caíram de repente no chão, e permaneceram em estado de desmaio ou transe durante muitas horas, se levantando em fim tão transformados com alegria que eles poderiam fazer nada além de gritar e cantar em uma êxtase de felicidade. Ele me fala que, sem dúvida, ele viu exemplos de levitação - pessoas sendo levantadas e jogadas para frente no ar. Ele viu homens e mulheres ruins de repente feridos com um desespero irresistível, levantando seus braços, proferindo os gritos mais terríveis, e caíndo para trás, como se fossem mortos, convencidos sobrenaturalmente da sua condição pecaminosa. O chão às vezes ficava cheio com homens e mulheres derrubados por uma revelação da realidade espiritual, e os obreiros da Missão levantavam seus corpos caídos e os levavam para outras salas, para que as Reuniões pudessem continuar sem distrações.

Nós temos um relato de um culto de adoração de agosto de 1878:
A visão dos rostos no palco nunca será esquecida - foi mais que alegria que iluminou todos - foi o êxtase de bêbados espirituais. Quando nós vimos um irmão, avançado em anos e endurecido pelo longo hábito de ordenações religiosas solenes, dançando, sim, realmente dançando à música, enquanto outros, menos constrangidos, estavam levantando os braços descobertos e girando para cá e para lá enquanto cantavam, nós percebemos como nunca antes, que a graça de Deus pode fazer as pessoas livres e libertas. Aqui está, mais uma vez, a religião velha, despreocupada com a opinião pública e cheia de glória e de Deus, motivo pelo qual os apóstolos foram obrigados a recomendar sobriedade.

Ballington Booth, filho de William, descreveu um culto de oração no mês seguinte:
No dia 13 de setembro tivemos um tempo maravilhoso. Nunca vou esquece-lo. Oh! Deus sondou todos os corações naquela noite. Depois de falar sobre entregar tudo e ser sustentado pelo poder de Deus, e cantando "Eu estou confiando, Senhor, em Ti", nós caímos de joelhos para oração silenciosa. Então o Deus Todo-Poderoso começou a convencer do pecado e chamar para o arrependimento. Alguns começaram a chorar, alguns gemeram, alguns clamaram em voz alta para Deus. Um homem disse, "Se eu não posso adquirir esta bênção, eu não posso viver"; outro disse, "Há algo, há algo, oh, meu Deus, meu Deus, me ajuda; me santifique; endireite meu coração"; e enquanto nós cantamos:
Me salva agora, me salva agora,
Meu Jesus me salva agora,
Uma querida irmã jovem se aproximou à mesa, então mais duas pessoas a seguiram; e nós cantamos novamente,
Me salva agora, me salva agora.
Sim, Jesus me salva agora.
Muitos mais foram tocados. Nós caímos novamente de joelhos. Cinco ou seis mais vieram à frente. Um homem tirou seu cachimbo do seu bolso, e o pôs na mesa, resolvido que este nunca mais ficaria entre a sua alma e Deus. Então seis ou sete mais vieram à frente. Então quase não pudemos nem cantar nem orar mais. Todos foram dominados pelo Espírito. Um jovem, depois de lutar e lutar durante quase uma hora, gritou "Glória, glória, glória, alcancei. Oh, Glória a Deus!" Uma jovem balançou a sua cabeça, dizendo, " Não, hoje não" mas logo foi vista no chão intercedendo poderosamente com Deus... E todos se uniram cantando as palavras,
Eu Te tenho oh! Eu Te tenho,
Todas as horas eu Te tenho;
E um irmão disse, "Oh, oh! se este ai não é o céu, como será o céu?" Outro irmão disse, "Eu tenho que pular"; Eu disse, "Então pule" e ele pulou por todo lado. Assim nós cantamos, choramos, rimos, gritamos, e depois que vinte e três tinham se entregado ao Mestre, confiando nele para os guardar do pecado, tanto como Ele tinha perdoado os seus pecados, nós encerramos cantando
Glória, glória Jesus me salva,
Glória, glória ao Cordeiro
Glória, glória ao Cordeiro.

A Revista da Missão Cristã de Setembro de 1878 relata "Uma Noite de Oração" na noite do 8 a 9 de agosto:
Ninguém que viu aquela cena de oração contundente e fé triunfante jamais iria esquece-la. Nós vimos um mineiro labutando com os seus punhos no chão e no ar, da mesma maneira que ele foi acostumado lutar com a pedra no seu trabalho diário, até que enfim ele ganhou o diamante que ele estava buscando - libertação perfeita da mente carnal - e se levantou gritando e quase pulando de alegria. Homens grandes, como também as mulheres, caíram no chão, ficando deitados durante algum tempo como se fossem mortos, subjugados com o Poder do Alto. Quando a alegria da libertação poderosa de Deus caiu sobre alguns, eles riram e também choraram de alegria, e alguns dos evangelistas mais jovens poderiam ter sido vistos, como rapazes brincando, abraçados e rodando um em cima do outro no chão.

A missão continuou a crescer, mesmo sofrendo muita oposição. No Natal de 1878 o nome da Missão Cristã mudou para "O Exército de Salvação", e William Booth foi chamado de seu General (um título que ele resistiu, no início, por achar pretensioso).

Por causa das suas táticas de invadir as ruas e áreas pobres com a pregação do Evangelho, o Exército de Salvação foi, nos primeiros anos, muito perseguido:
Num só ano – 1882 – 669 soldados do Exército de Salvação foram atacados ou brutalmente assaltados. Sessenta prédios foram quase demolidos pelas multidões. Até 1.500 policiais de plantão todo domingo, pareciam ser incapazes de proteger as tropas do Booth.

E os resultados continuaram:
Não intimidados pela perseguição e pobresa, estes guerreiros, entre 1881 e 1885 levaram 250.000 homens e mulheres aos altares do Exercíto.

Seu crescimento não foi limitado ao país da Inglaterra. O Exércíto se estendeu aos EUA e Austrália em 1880, e à França no ano seguinte. Divisões na África do Sul e Nova Zelândia começaram em 1883.

Catherine Booth, a "Mãe do Exercito de Salvação" faleceu no dia 4 de outubro de 1890. Nesse ano, o Exército já tinha alcançado um sucesso inimaginável desde seu início, vinte e cinco anos antes:
Agora eles estavam operando quase 2.900 centros – mais que 775.000 de imóveis, a maioria hipotecada. Levantaram 18.750.000 para ajudar homens para quem o mundo negou uma segunda chance. A bandeira "Sangue e Fogo" estava levantada em trinta e quatro países. Na Sede Internacional, o assunto da salvação agora envolveu 600 telegramas, 5.400 cartas cada semana.
Mas Booth tinha ganho mais que território e fundos: ele ganhou os olhos e os ouvidos do mundo. Cada semana seus 10.000 oficiais, a maioria com menos de vinte e cinco anos, pregaram o Evangelho à multidões em 50.000 reuniões. Somente na Inglaterra, visitaram 54.000 lares cada semana. Seus vinte e sete jornais alcançaram trinta e um milhões de leitores.3

Em 1909 o Booth, agora com oitenta anos mas sempre um evangelista, começou suas "Campanhas Motorizadas" onde ele viajou pela Inglaterra de carro, evangelizando:
Foi como se Booth, mais perto da sua audiência desde o dias da Missão Cristã, queimou com a chama de Deus. Numa vez, viajando para o norte, seu carro foi parado por operários que fecharam a rua com uma corda. Mas, quando ele se levantou do banco, a voz de Booth parecia hipnotizá-los. "Alguns de vocês homens nunca oram – vocês pararam de orar há muito tempo. Mas vou dizer a vocês, vocês não vão orar para seus filhos, para que eles possam ser diferentes?"
Dentro de minutos, o neto do General, Wycliffe relembra, a rua se tornou uma panorama sem fim de cabeças descobertas enquanto setecentos homens se ajoelharam em adoração silenciosa.

William Booth faleceu no dia 20 de agosto de 1912.
Em sessenta anos como evangelista, Booth viajou cinco milhões de milhas, pregando quase 60.000 sermões – e seu espírito hipnótico atraiu 16.000 oficiais para seguir a bandeira em cinquenta e oito países, para pregar o evangelho em trinta e quatro línguas. Em 1881, quando Booth mudou-se para a Rua Queen Vitória, os obreiros da Sede se sentiram sobrecarregados abrindo mil cartas cada semana. Agora eles estavam afundados numa enchente de mil cartas cada dia.

O Exército de Salvação ficou muito conhecido por causa das suas muitas obras sociais, mesmo que essas tenham sido o resultado de um verdadeiro avivamento e uma paixão pelas almas perdidas. Comentando sobre isso, Booth escreveu:
"Nossa Obra Social é, essencialmente, uma atividade religiosa. Ela não pode ser contemplada, iniciada nem continuada com grande sucesso, sem um coração cheio de compaixão e amor, e revestido com o poder do Espírito Santo."

Enquanto mulheres chorarem, como elas o fazem agora, eu lutarei;
Enquanto crianças pequenas tem fome, eu lutarei;
Enquanto homens vão para a prisão, entram e saem, entram e saem,
Como eles o fazem agora, eu lutarei;
Enquanto há um bêbado remanescente,
Enquanto há uma pobre menina perdida nas ruas,
Enquanto houver uma alma em trevas sem a luz de Deus - eu lutarei,
Eu lutarei até o final. - General William Booth

John Newton


Por volta de 1750, John Newton era o comandante de um navio negreiro inglês. Os navios faziam o primeiro pé de sua viagem da Inglaterra quase vazios até que escorassem na costa africana. Lá os chefes tribais entregavam aos Europeus as "cargas" compostas de homens e mulheres, capturados nas invasões e nas guerras entre tribos.Os compradores seleccionavam os espécimes mais finos, e comprava-os em troca de armas, munições, licor, e tecidos. Os cativos seriam trazidos então a bordo e preparados para o "transporte". Eram acorrentados nas plataformas para impedir suicídios. Colocados lado a lado para conservar o espaço, em fileira após a fileira, uma após outra, até que a embarcação estivesse "carregada", normalmente até 600 "unidades" de carga humana. Os escravos eram "carregados" nos navios para a viagem através do Atlântico. Os capitães procuraram fazer uma viagem rápida esperando preservar ao máximo a sua carga, contudo a taxa de mortalidade era alta, normalmente 20% ou mais.Quando um surto de disenteria ou qualquer outra doença ocorria, os doentes eram atirados ao mar. Uma vez chegados ao Novo Mundo, os negros eram negociados por açúcar e melaço que os navios carregavam para Inglaterra no pé final de seu "comércio triangular."John Newton transportou muitas cargas de escravos africanos trazidos à América no século XVIII. Numa das suas viagens, o navio enfrentou uma enorme tempestade e afundou-se. Foi nesta tempestade que Newton ofereceu sua vida a Cristo, pensando que ia morrer.Após ter sobrevivido, ele converteu-se verdadeiramente ao Senhor Jesus e começou a estudar para ser um chamado Pastor”. Nos últimos 43 anos de sua vida ele pregou o evangelho em Olney e em Londres. Em 1782, Newton disse: "Minha memória já quase se foi, mas eu recordo duas coisas: Eu sou um grande pecador, Cristo é o meu grande salvador."No túmulo de Newton lê-se: "John Newton, uma vez um infiel e um libertino, um mercador de escravos na África, foi, pela misericórdia de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, perdoado e inspirado a pregar a mesma fé que ele tinha se esforçado muito por destruir".O seu mais famoso testemunho continua vivo, no mais famoso das centenas de hinos que escreveu:

SUBLIME GRAÇA

Sublime graça que alcançou
Um pobre como eu,
Que a mim, perdido e cego achou,
Salvou e a vista deu!

De vãos temores e aflição
A graça me livrou
E doce alívio ao coração
Em Cristo me outorgou.

Se lutas vêm, perigos há,
Se é longo o caminhar,
A graça a mim conduzirá
Seguro ao santo lar.

A Deus, então, adorarei.
Ali, no céu de luz,
E para sempre cantarei
Da graça de Jesus.