quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

John Knox


O Reformador da Escócia

SINOPSE HISTÓRICA E OBRAS.

1513-1515 (?) = A data e o local de nascimento de John Knox são incertos, sendo aceita a data de 1513 como a mais provável. É possível que Knox tenha nascido no povoado de Haddington, às margens do rio Tyne, distrito de Lothian Oriental, cerca de 30 Km a leste de Edinburgo. Seu pai, William Knox era homem do campo e sua mãe era membro da família Sinclair. Sua mãe faleceu quando ainda era criança. Foi educado por sua madrasta, que era carinhosa e compreensiva.

Recebeu boa educação, aprendendo latim nos estudos regulares. A seguir matriculou-se na Universidade de Saint Andrews, para a formação acadêmica.

Waldyr Carvalho Luz descreve Knox como um homem comum e de aparência atarracada. Ombros largos, altura abaixo da média; possuindo um olhar brilhante e penetrante; saúde razoável; de temperamento impetuoso e disposição férrea. Lloyd-Jones comenta que “havia algo que lhe vinha aos olhos uma vez ou outra, que, literalmente, punha o temor de Deus dentro das pessoas”. Cairns nos diz que ele “era um homem corajoso, ríspido até, às vezes, que a ninguém temia, exceto a Deus”.

1528 = As idéias luteranas do jovem pastor Patrick Hamilton, que estudara em Marburg e Wittenberg, com Lutero, foram uma causa positiva do início da reforma na Escócia.

Ele ensinava a justificação pela fé e chamou o Papa de anticristo. A morte prematura de Patrick Hamilton, queimado de forma desumana lentamente na fogueira como herege, marcou profundamente John Knox, que tinha por volta de 15 anos nessa época.

1530 = Ordenado sacerdote católico, tornou-se discípulo de George Wishart, que introduzira os ideais da reforma zuingliana na Escócia. Wishart traduziu para o inglês em 1536, a Confissão Suíça. O pensamento de Wishart influenciou fortemente a vida espiritual de Knox. Pouco depois tornou-se tutor de filhos de nobres favoráveis à reforma.

1544-46 = Knox serve a Wishart como seu guarda-costas entre 1544-46.7 Wishart foi queimado em uma estaca em Edimburgo, em 1546.

1546 = Pregou aos soldados protestantes no acampamento de Saint Andrews até ser capturado pelo exército francês, por ter participado de uma revolta em prol da reforma

(31/07/1547). Trabalhou por 19 meses como escravo nas galés de um navio militar francês até sua libertação na troca de prisioneiros. Nas galés sofreu, não só os rigores desse tipo de vida, como também muita crueldade, debilitando sua saúde.

1549-51 = Retornando à Escócia, como a situação não era favorável, mudou-se para a Inglaterra, sendo designado ministro e pregador em Berwick, na fronteira com a Escócia, e posteriormente Newcastle. Nesse período firmou-se como grande pregador.

1552 = Transferindo-se para Londres, serviu como um dos capelães reais e um dos pregadores da corte, pregando várias vezes na presença do rei.

Em setembro, poucas semanas antes da publicação dos 45 Artigos, que dariam origem aos 39 Artigos, pregou perante o rei um sermão contra o artigo 38, que obrigava a recepção da ceia (hóstia) de joelhos. Knox afirmou que o ajoelhar-se era idolátrico e pecaminoso. Isso levou Cranmer a inserir, às pressas, uma observação ao artigo, publicado em uma folha em separado, que ficou conhecido como “o Artigo Negro”.

1553-54 = Quando Eduardo VI ofereceu-lhe o bispado de Rochester, Knox o recusou desprendidamente, porque entendeu que esse oferecimento era uma tentativa do regente real Northumberland de silencia-lo e neutralizar sua influencia na corte real.

Com a ascensão de Maria Tudor ao poder na Inglaterra, teve de fugir para a Europa (03/1554). Indo para a Suíça, onde passou algum tempo com Calvino, em Genebra e Bullinger, em Zurique. Também fez visitas a Escócia, a fim de animar a fé dos que deixara no país.

1554-1559 = Nesse período esteve em Genebra e tornou-se aluno de Calvino, o qual considerava “o notável servo de Deus”. Sob a persuasão de Calvino aceitou pastorear exilados religiosos ingleses em Frankfurt, na Alemanha. Após algum tempo ali, devido a vários problemas, especialmente devido a disputas com o anglicano Richard Cox, que queria que a igreja de refugiados em Frankfurt tivesse “um rosto inglês”. A resposta de Knox refletiria o ponto central das controvérsias que se seguiriam na Inglaterra posterior entre os puritanos e a igreja Anglicana: “O Senhor permita que ela tenha a face da igreja de Cristo”. Por influência e incitação de Cox, Knox foi expulso de Frankfurt e teve de retornar a Genebra, sendo acompanhado por vários dos refugiados que pastoreava. Ali tornou-se novamente pastor da igreja inglesa (1555-59).

Casou-se com Marjorie Bowes em 1555, numa rápida visita à Escócia.

Em 1556 escreveu A Forma de Orações, como diretório de culto.

1557 = Em dezembro de 1557, os nobres escoceses fizeram um pacto de usar suas vidas e bens para estabelecer “a Palavra de Deus” na Escócia. Nessa conjuntura, Knox iria voltar à Escócia para implantar o calvinismo e fundar a igreja presbiteriana escocesa.

1558 = Publica o Primeiro Clarim Contra o Monstruoso Governo de Mulheres, dirigido a Maria Tudor,16 em que ele dizia ser contra a natureza, Deus, e sua palavra, uma mulher governar, pois isso era “a subversão da boa ordem, de toda justiça e equidade”.

Seu livro foi publicado em má hora, pois teve de se desculpar com a rainha da Inglaterra (Elizabeth I) por causa disso. A rainha Elizabeth nunca o perdoou por causa desse livro.

Ainda nesse ano publicou Supplication (Rogativa), dirigida à regente escocesa; Appellation (Apelação), dirigida à nobreza da Escócia; e por último: Letter to The Commonality of Scotland (Carta ao Povo em Geral da Escócia).

1559 = A pedido de Calvino, escreveu seu único tratado teológico; Treatise on Predestination (Tratado Sobre a Predestinação). Vendo a atitude da rainha Elizabeth I para com a reforma inglesa, escreveu uma Breve Exortação à Inglaterra a Abraçar Rapidamente o Evangelho de Cristo Doravante, à Supressão e ao Banimento da Tirania de Maria.18 A rainha da Inglaterra fez-lhe forte objeção, por considerá-lo uma intromissão de um escocês nos negócios da Inglaterra; também porque Knox usara de uma linguagem muito forte. Pregava contra os bispados ingleses e afirmava que o reinado de Maria Tudor fora um juízo de Deus sobre a Inglaterra por esta não levar adiante a reforma da igreja.

Knox retornou à Escócia, em abril desse ano, pregando na igreja de S. Giles, em Edimburgo.

1560 = Knox e os Lordes da Congregação iniciam a Reforma na Escócia. Participou da composição da Confissão Escocesa e ajudou a esboçar o Primeiro Livro de Disciplina.

* Pôs-se fim do domínio papal na igreja escocesa.

* A missa é declarada ilegal.

* Revogação de todos os decretos contra os hereges (protestantes).

* Aceitação da Confissão de Fé dos Seis Johns (Confissão Escocesa), escrita em quatro dias, a pedido do parlamento. Essa confissão, de inspiração notadamente calvinista foi a principal confissão de fé escocesa até a adoção da Confissão de Fé de Westminster em 1647.

* Organização da igreja em presbitérios, sínodos e uma assembléia geral, semelhantes aos de Genebra. Nesse mesmo ano reuniu-se pela primeira vez a Assembléia Geral da Igreja da Escócia. Foram formalmente implantados em 1567.

Apesar disso, Knox teve muitos problemas com os lordes da congregação, que desejavam apossar-se das terras católicas. Knox insistia que deveriam ser utilizadas para o alívio da pobreza no país, estabelecer um sistema de educação universal e sustentar a igreja escocesa.

Em dezembro desse ano, faleceu sua esposa, deixando-lhe dois filhos pequenos: Nathanael (3 anos e meio) e Eleazer (dois anos). Calvino lhe escreveu uma carta

demonstrando a sua solicitude e condolências.

1561 = Maria Stuart assume o trono escocês, segundo Gonzalez, a convite dos lordes da congregação.21 Era uma mulher bela e inteligente. Ela teve vários encontros duros e francos com Knox, que não cedeu frente às suas lágrimas e lisonjas, tentando levar a igreja escocesa de volta ao catolicismo.

1564 = Publicação do Livro de Ordem Comum.

1567/68 = Maria Stuart, abdica ao trono escocês e refugia-se na Inglaterra, sob a tutela de Elizabeth I. Após a abdicação de Maria Stuart, Knox pregou na coroação do filho dela, James I, como rei da Escócia.

1572 = Próximo à data que marcou a noite de S. Bartolomeu, na França (24de agosto) Knox teve um ataque de paralisia e retirou-se da liderança da reforma. Mesmo assim, ao saber dos eventos dessa noite, fez um grande esforço para retornar ao púlpito, avisando a seus compatriotas que igual destino lhes cairia se fraquejassem na luta.

24/11/1572. Na manhã desse dia pediu à sua esposa que lesse dois textos bíblicos para ele; I Coríntios 15, que fala da ressurreição; e João 17, a oração sacerdotal de Cristo, sobre o qual comentou; “Aqui lancei a minha primeira âncora”.25 Por volta das 22 horas, seu médico perguntou-lhe se ouvira as orações dos presentes a seu favor, ao que respondeu: “Quisera Deus que vocês e todos os homens as ouvissem como eu as ouvi; e a Deus louvo por este som celestial... Agora chegou”. Foram as suas últimas palavras, então faleceu.

Ainda neste ano, tentou-se restabelecer o sistema episcopal na igreja escocesa, contudo, Andrew Melville (1545-1622), reitor da Universidade de Glasgow, conduziu a luta pela restauração do sistema presbiteriano.

Em 1581, foram restabelecidos os presbitérios e em 1592, debaixo de forte oposição real (James VI) o presbiterianismo tornou-se a religião oficial dos escoceses.

A vitória final, porém, só seria definitiva em 1690.

APANHADO TEOLÓGICO

Não é correto afirmar que o pensamento de John Knox não tinha originalidade e que foi um mero repetidor das idéias de Calvino. Lloyd Jones27 aponta dois pontos de seu pensamento em que isso fica claro. Primeiro na questão da relação entre Igreja e Estado; segundo na atitude para com diversas cerimônias religiosas da Igreja Anglicana, exemplificadas em seu livro “O Primeiro Toque da trombeta Contra o Governo Monstruoso das Mulheres” de 1558.

Knox via a si mesmo como um pregador e não como um teólogo acadêmico.

Entendia que sua função era a de “tocar a trombeta do seu mestre”. Seus sermões eram caracterizados pela exposição bíblica e pela preferência pelo Antigo Testamento, atacando a idolatria e a corrupção do culto cristão.. Knox seguia à risca o princípio da sola Scriptura, tendo a Bíblia como a única base autorizada em que a doutrina pode ser fundamentada. Afirmou, seguindo Lutero e Wishart a justificação pela fé somente (sola fide).

Sua teologia era profundamente calvinista. Sua obra Tratado Sobre a Predestinação (1559), segue de perto as formulações de Calvino e Beza, quando ensina que Deus escolheu soberanamente alguns para a salvação e outros para a condenação eterna, afirmando que a salvação do homem depende exclusivamente da graça divina.

Participou da confecção da Confissão Escocesa, caracterizada “pela centralidade de Cristo em cada um de seus vários tópicos, bem como pela riqueza da espiritualidade e o calor de expressão”.

Knox também percebeu que como a Igreja estava mudando de uma forma para outra completamente, seria necessário a composição de um Livro de Disciplina, onde fosse elaborado um plano para a vida eclesiástica e social da nação. É no Livro de Disciplina, seguindo a Confissão Escocesa, que ficam definidas como marcas da verdadeira igreja: a pregação correta da Palavra de Deus, a administração correta dos sacramentos (batismo e ceia) e o exercício correto da disciplina eclesiástica.

As marcas, sinais e símbolos seguros pelos quais a imaculada noiva de Cristo é distinguida da horrível meretriz, a falsa igreja, nós afirmamos, não são nem antigüidade, nem título usurpado, sucessão linear, lugar indicado, número de homens que provocam o erro... As marcas da verdadeira Igreja, portanto, nós cremos, confessamos e admitimos ser: primeiro, a pregação da verdadeira Palavra de Deus, na qual Deus tem nos revelado a si mesmo, como os escritos dos profetas e dos apóstolos declaram; segundo, a correta ministração dos sacramentos de Cristo Jesus, com os quais devem ser associados a palavra de Deus e a promessa de Deus para selá-las e confirmá-las em nossos corações; e por último, disciplina eclesiástica corretamente ministrada, como a Palavra de Deus prescreve, com a qual a imoralidade é reprimida e a virtude é alimentada.

A inclusão da disciplina como terceira marca da igreja o distingue de Calvino, que embora tinha a disciplina em alta conta, nunca afirmou ser ela a terceira característica da igreja verdadeira. É exatamente nesse ponto que se percebe a influência de Bullinger em seu pensamento, pois é na Confissão Belga de 1536, que essa distinção aparece pela primeira vez. Também sua visão da disciplina, não pode ser entendida legalisticamente, mas deve ser vista à luz da participação do crente no sacramento da ceia, que não deveria “ser profanada com a permissão de que os negligentes e os deliberadamente iníquos se aproximassem da Santa Mesa no momento sagrado em que o Senhor e os participantes estivessem (como diz Knox) ‘unidos simultaneamente’”.



JOHN KNOX VAI A GENEBRA

Foi um escocês, John Knox, quem ministrou à comunidade dos falantes de língua inglesa em Genebra de 1556 a 1559, depois que o auditório de Calvino foi reconsagrado.

John Knox nasceu em Haddington, na Escócia, em 1513, e pouco se sabe a respeito de sua infância. Contudo, ele foi grandemente atraído pela pregação da Reforma de George Wishart, que foi queimado na estaca na frente do Castelo de St. Andrews por ordem do arcebispo, cardeal David Beaton, em 1546. A retaliação dos amigos de Wishart foi assassinar o cardeal dentro de seu próprio castelo, o qual ocuparam por cerca de um ano, durante o que foram unidos por John Knox. Subseqüentemente, eles foram assediados por uma armada francesa — a influência da França na Escócia por esse tempo era particularmente forte — e aconteceu de serem capturados. Knox foi sentenciado a 18 meses de serviço nas galés francesas, presumivelmente por sua fé e pela companhia que mantinha.

Após sua libertação, Knox rumou para a Inglaterra, onde foi ordenado sacerdote da Igreja da Inglaterra. Ele tornou-se Capelão Real em 1551 e tomou parte na revisão do Segundo Livro de Orações de Eduardo VI. Com a ascensão de Maria Tudor ao trono, Knox fugiu para Frankfurt, onde ministrou a uma congregação de refugiados de língua inglesa. Ele fez uma rápida visita a Genebra e conheceu João Calvino. Sua congregação em Frankfurt não gostou muito de sua visão avançada, assim, em 1555, ele retornou à Escócia para trabalhar pela Reforma ali. Mas ainda não era a hora e uma vez mais ele teve de fugir — dessa vez para Genebra, onde ministrou de 1556 a 1559. Incidentalmente, seu nome pode ser encontrado sob o rol da Igreja da Santíssima Trindade, em Genebra, porque naquele tempo ele era, obviamente, um ministro ordenado da Igreja Anglicana. Knox e Calvino tornaram-se amigos durante esse tempo, e foi devido à admiração de John Knox pela visão do sistema de organização e governo da igreja que Calvino tinha que o que se conhece como sistema presbiteriano se desenvolveu: uma série de cortes graduais, uma assembléia, um presbitério, um sínodo e uma assembléia geral que concede aos legisladores oportunidade de opinar em matérias eclesiásticas. Foi John Knox e seu sucessor, Andrew Melville, que introduziram esta forma de governo de igreja na Escócia. E hoje a igreja nacional, a Igreja da Escócia, é Presbiteriana.

Tradução: Márcio Santana Sobrinho - Fonte: Sitting in Calvin’s Chair

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